Local de encontro libertino de uma sociedade secreta, uma mina de giz pouco convencional, um ponto quente de fenómenos paranormais e um gesto único de rivalidade por parte de um excêntrico do século XVIII, as Hellfire Caves são um local histórico multifacetado, com um passado longo e cheio de histórias e muitos elementos teatrais intrigantes. Tal como as experiências imersivas de hoje em dia, a atração usa uma mistura divertida de história e interatividade para mergulhar os visitantes no mundo inspirado em mitos do seu criador, Sir Francis Dashwood.
Onde é que se encontram as Hellfire Caves?
Situadas na orla das colinas de Chiltern, em Buckinghamshire, a apenas uma hora de carro de Londres, as cavernas encontram-se na propriedade de West Wycombe. Esta extensa propriedade de 5000 acres tem sido o lar da família Dashwood há várias gerações e é agora co-propriedade do National Trust. Melhor para nós, pois isso significa que podemos dar uma espreitadela por lá.
É o passeio ideal para um dia fora da cidade. Um passeio em que podes passar a manhã a admirar o mobiliário luxuoso e os quadros com molduras douradas da mansão palladiana no West Wycombe Park, antes de desceres mais tarde por túneis sombrios para descobrir histórias fantásticas sobre o Hellfire Club e rituais encenados por aristocratas entediados. E, claro, não podes deixar de fazer uma paragem no café Walled Garden para um chá e doces acabados de sair do forno.

As origens das Hellfire Caves
Apesar de serem conhecidas como um local notório pelas proezas hedonistas e rituais pseudo-religiosos dos libertinos da alta sociedade, a criação inicial das cavernas foi, na verdade, concebida por Sir Dashwood como uma forma de ajudar a combater a pobreza e o desemprego locais durante um período de secas e colheitas fracassadas. Ele contratou trabalhadores locais para extrair giz da colina, que poderia ser usado para criar uma nova estrada principal entre West Wycombe e High Wycombe. Mas a questão permanece: porquê escavar uma rede de túneis explicitamente projetada quando ele poderia simplesmente ter ampliado a pedreira? Não é preciso ser o Sherlock para suspeitar de um motivo oculto. Não é segredo que as cavernas artificiais estavam muito na moda na época, e o Sir Francis aparentemente gostava de acompanhar as últimas tendências.
Assim que as cavernas ficaram concluídas em 1752, Dashwood passou a ter o seu próprio espaço subterrâneo para o seu grupo exclusivo, a que chamou«Ordem dos Cavaleiros de São Francisco»(o nome«Hellfire Club»foi-lhe atribuído mais tarde pelo público), e que contava entre os seus membros com políticos de destaque, primeiros-ministros, aristocratas e artistas. Concebidas como um refúgio secreto das regras puritanas da sociedade, dizia-se que as cavernas eram usadas para cerimónias religiosas simuladas, devassidão sexual, bebedeiras e, sem dúvida, alguma política obscura e acordos secretos.
Dashwood era também um amigo íntimo de Benjamin Franklin, que visitava frequentemente a propriedade durante as suas estadias em Londres. Embora não se acredite que ele fosse membro do Hellfire Club, o Pai Fundador visitou as cavernas algumas vezes, e há até uma câmara com o seu nome: a «Caverna de Franklin».

O que podes esperar das cavernas hoje em dia?
Infelizmente para aqueles pobres aristocratas, todas as coisas boas têm de acabar, e em 1760 o clube dissolveu-se. As cavernas ficaram em ruínas durante 150 anos, envoltas em lendas folclóricas e histórias de fantasmas, antes de serem finalmente revitalizadas como atração turística no início da década de 1950 por um descendente direto de Sir Francis Dashwood – que tinha o mesmo nome. Depois da instalação de iluminação ambiente, medidas de segurança, cenários com figuras de cera, efeitos sonoros e placas informativas, o local foi restaurado e, desde então, já recebeu mais de 2,5 milhões de visitantes curiosos.
Tal como qualquer boa experiência imersiva, as cavernas foram concebidas para brincar com os sentidos. Se descer 300 pés abaixo do solo não te der arrepios, então o brilho fraco da luz e a queda de temperatura talvez o façam. Em contraste com os túneis estreitos e sinuosos, os visitantes também podem esperar uma ligeira sobrecarga sensorial no espaço retumbante do Grand Banqueting Hall, com uma acústica ecoante propositadamente concebida para te impressionar.
Dashwood parecia deliciar-se com o uso de ilusões espaciais, perspetiva forçada e referências a um dos seus grandes interesses: a mitologia grega antiga. Isto reflete-se no seu «Rio Estige», um pequeno ribeiro coberto de estalactites nas cavernas, ao qual deu o nome do rio mitológico que separa o mundo dos vivos do mundo dos mortos.

Pode-se dizer que ele escreveu o manual das experiências imersivas que podes visitar hoje em dia. O design do tipo «walkthrough» e as recriações históricas são características essenciais em inúmeras exposições interativas de Londres – a única diferença é o uso crescente da tecnologia à medida que esta se foi desenvolvendo. Podes ver as técnicas que despertam a curiosidade das Hellfire Caves a serem usadas em locais como a exposição «The Timewalk», onde és transportado para civilizações antigas através de esculturas e imagens deslumbrantes, e no Paradox Museum London, que alberga um país das maravilhas de ilusões que te deixam de cabeça à roda.
Tal como se vê no ecrã
Não é surpresa que a impressionante fachada gótica em pedra e os túneis sinistros tenham feito das Hellfire Caves um local de filmagens muito procurado. Até podes ver a entrada no filme de 2024 «Beetlejuice Beetlejuice», onde serviu de cenário para a entrada de um castelo romeno. Também já foi destaque em séries como «Midsomer Murders», «Silent Witness» e «Little Dorrit».